segunda-feira, 31 de maio de 2010

Biogás – Qual o seu interesse para o concelho da Murtosa?

A União Europeia estabeleceu uma meta global de 8 % na redução da emissão de gases com efeito de estufa até 2008 – 2012 e até 2020 prevê-se a substituição de 20 % dos combustíveis fósseis, como a gasolina e gasóleo, por combustíveis alternativos.

O biogás é apontado como uma dessas alternativas energéticas, competitivas e sustentáveis.

É constituído por cerca de 60% de metano e 40% de dióxido de carbono, produzido a partir da fermentação de matéria orgânica dos dejectos das explorações agro-pecuárias e dos efluentes da indústria agro-alimentar, das ETAR e dos aterros sanitários. Pode ser facilmente aproveitado para produção de electricidade, para aquecimento de instalações de água e como combustível para viaturas.

Nas instalações de biogás, os efluentes são depositados num “biodigestor”, um reservatório onde a matéria orgânica vai ser decomposta por bactérias, na ausência de oxigénio. Dessa decomposição vai resultar a produção de gases e a produção de um fertilizante de alta qualidade. O gás produzido (metano) vai ser canalizado e aproveitado para a produção de energia e o fertilizante orgânico, muito mais rico em nutrientes que o estrume das nitreiras das vacarias, vai servir como fertilizante dos terrenos agrícolas.

O biogás está actualmente a ser aproveitado em diversos países europeus, como a Suiça, a Suécia, a Holanda, Alemanha, entre outros.

Na cidade Alemã de Lünen está a ser construída uma rede de biogás produzido a partir dos efluentes das explorações pecuárias, que vai beneficiar 90 mil moradores com esta alternativa energética de baixo custo em relação ao petróleo, carvão ou mesmo ao gás natural.

Fig.1 – Fábrica de produção de biogás da cidade de Lünen

Os moradores da pequena cidade holandesa de Zeewolde, de 20 mil habitantes, obtêm a energia que necessitam para suas casas a partir de uma fábrica de biogás instalada numa exploração das redondezas.

Também no nordeste da China, as fezes de 250 mil vacas de uma exploração leiteira servirão de combustível para o maior projecto do mundo de produção de biogás, que deverá começar a funcionar em Setembro próximo. A Huishan Farm, em Shenyang, gerará anualmente 38.000 megawatts por hora (mW/h) de energia, que será vendida à rede estatal na China. Este país possui 1.500 fábricas de biogás de larga escala e digestores em explorações pecuárias e aterros sanitários. A China quer, até 2020, atingir os 300 milhões de moradores das suas áreas rurais a utilizar o biogás como fonte de electricidade.

Já existem automóveis movidos a biogás. O novo Volkswagen Scirocco, produzido em Palmela, tem uma versão que é movida a biogás. Na Suécia, já existe um comboio também movido a biogás e a maioria dos transportes públicos deste país é movido com este tipo de combustível.


Fig.2 - Novo VW Scirocco, onde se pode ler que emite menos 80% de CO2

É a altura de encarar os efluentes agro-pecuários como um bem precioso que, se soubermos aproveitar, pode ser bastante rentável para a produção de biogás. É desta forma que muitos países têm conseguido tornar os espaços rurais mais competitivos e mais rentáveis.

Assim, olha-se para o “desperdício” como uma fonte de riqueza e de oportunidade energética.

A Murtosa poderia beneficiar com a criação de uma fábrica de produção de biogás a partir dos excrementos das vacarias existentes no concelho.

Recentemente foram postas à disposição das autarquias verbas dos fundos comunitários para requalificar os meios rurais através dos fundos do PRODER. Os objectivos são bem claros quanto à requalificação e tratamento colectivo dos afluentes agro-pecuário, de modo a poder dinamizar este sector.

Os fundos do PRODER que as Autarquias têm acesso servem para a construção de centros de produção de biogás.

Os benefícios seriam diversos, não só para os agricultores mas também para os habitantes do concelho.

No concelho da Murtosa existem mais de 6000 vacas. Se o biogás resultante do aproveitamento dos excrementos que cada vaca produz por dia dá para electrificar e aquecer 7 habitações, poder-se-ia produzir o biogás necessário para electrificar e aquecer 42000 habitações.

De acordo com as actuais exigências ambientais, a Murtosa vai ter que resolver o problema do destino a dar ao excesso dos excrementos produzidos nas vacarias.

A produção de biogás é a melhor solução viável e rentável para resolver este problema, se os produtores quiserem manter ou aumentar o número de vacas das suas explorações e para poderem sobreviver desta actividade.

Uma vaca produz 30-70 kg de excrementos por dia. Os produtores pecuários poderiam fornecer o excesso dos excrementos à fábrica de biogás, e desta forma não necessitariam de construir fossas e nitreiras de grandes dimensões o que iria reduzir o custo da requalificação das suas explorações para poderem ser licenciadas. Para cada vaca o agricultor necessita de ter 7m3 de fossa que não é obrigatório ser localizada na sua exploração. Podem justificar o seu destino e armazenamento neste tipo de instalações através de protocolos feitos com a entidade gestora da fábrica de biogás (Câmara Municipal).

Assim todos saem a ganhar. O agricultor que não necessita de fazer obras tão avultadas, a entidade que gere a fábrica de biogás que assim obtêm a matéria-prima que necessita para a produção do biogás.

Para além disso, ao fornecerem os excrementos das suas explorações à fábrica de biogás iriam obter um fertilizante natural, muito mais rico em nutrientes, quase isento de organismos patogénicos e de sementes de ervas infestantes. Os excrementos dos animais para se tornarem um fertilizante, necessitam de estar a fermentar cerca de 6 a 7 meses. Durante este armazenamento a maioria dos nutrientes dos excrementos perde-se para a atmosfera e por infiltração no solo.

A tecnologia de produção de biogás permite a produção de adubo natural num curto período de tempo, cerca de 20 a 40 dias, sem perdas de nutrientes. Tal adubo é muito rico e pode ser logo utilizado.


Nunca houve, como agora, tanto dinheiro posto à disposição das autarquias para dinamizar e requalificar o sector agro-pecuário e para que se tenha um crescimento sustentável e ecologicamente equilibrado.


Mas a falta de visão da Câmara Municipal, levará por certo, a uma morte certa e anunciada deste sector. Os que ficarem terão grande dificuldade em competir com os seus colegas, que souberam aproveitar bem as verbas que lhes são colocadas à disposição.

Parece ser mais fácil para este executivo camarário virar costas a esta realidade e, infelizmente, não vê nisto uma óptima oportunidade de dinamizar o sector, criar mais postos de trabalho e de evitar a falência de muitas explorações.

É nos momentos difíceis que faz falta uma boa liderança e alguém com visão de futuro e de oportunidade. Este executivo camarário não parece ter visão para planear o futuro.

Não basta alcatroar caminhos com as verbas do PRODER. É um desperdício de dinheiro. Há que aproveitar bem este dinheiro que a comunidade europeia põe à disposição das autarquias para tornar o espaço rural mais competitivo e ecologicamente mais equilibrado, com projectos que garantam a sustentabilidade e o futuro das populações.

Há que ter um crescimento bio-sustentável, sem impacto ambiental negativo.

Com a existência de uma fábrica deste tipo no concelho, todos nós podemos beneficiar de um tipo de energia renovável, ter energia eléctrica e de aquecimento mais barata e a autarquia poderia usufruir de mais uma fonte de rendimento.








Ver no filme que se segue, a quantidade de metano que uma vaca produz por hora